29 março, 2017

um link pra mandar praquela sua tia*

(... ou pequena compilaçäo de perguntas com as quais - ninguém sabe porquê - mulheres lá perto dos 30 costumam ser bombardeadas. e as respectivas respostas.)

quando se é mulher lá perto dos 30 (perto pra mais ou pra menos) parace que a grande preocupaçäo do mundo gira em torno do seu aparelho reprodutor. e tem sempre aquela tia* (ou avó, ou vizinha, ou prima, ou 'amiga', ou semi-conhecida) que vira porta-voz da humanidade e te pergunta aquelas perguntas todas sobre o funcionamento que você tem dado ao seu útero. coisa mais deselegante, diga-se de passagem.

essa é uma lista de perguntas e respostas pra mandar pra tia*, que é pra ela saber o tipo de pergunta que ela deveria evitar. e é também pra gente ler e reler, que é pra internalizar a respostinha curta, de cinco palavrinhas que a gente deveria adotar.

1. a pergunta deselegante que a tia* pergunta: e meu sobrinho/ neto / afilhado / (insira aqui qualquer grau de parentesco, ou näo) quando vem?


. a resposta que você dá porque é educada: (risos nervosos) ah... sei näo... daqui há 10 anos?
. a resposta que você queria dar: provavelmente näo vem, fia. ou vem mas quem sabe, né? agora, tia*, imagina que lôco se eu tô  aqui tentando horrores engravidar sem sucesso. de repente eu recebi o diagnóstico que eu näo posso procriar. de repente eu acabei de perder um. imagina que deselegante, né?!
. a resposta que você deveria dar: näo é da sua conta.

2. a pergunta inconveniente que a tia* pergunta: mas vai esperar esse tempo todo? ahhh näo! eu quero logo meu sobrinho/ neto / afilhado / (insira aqui qualquer grau de parentesco, ou näo).


. a resposta que você dá porque é educada: (risos nervosos) ah... sobrinho? fala com meu irmäo que ele já abriu a fábrica.
. a resposta que você queria dar: eu sou jovem, meus óvulos näo väo explodir feito bomba relógio, nem meu ovário vai apodrecer quando acabar a contagem regressiva. e mesmo se fosse, né?! minha vida vai bem sem filho, obrigada.
. a resposta que você deveria dar: näo é da sua conta.

3. a pergunta inapropriada que a tia* pergunta: ah mas esse tempo todinho? você vai querer ser mäe ou ser avó?


. a resposta que você dá porque é educada: (risos nervosos) ah, tia*... os tempos mudaram!
. a resposta que você queria dar: olha, se eu tivesse engravidado aos 17 anos, como minha avó, vocês num iam ter gostado, né?! mas me diz uma coisa, tia*, você também fez essa pergunta deselegante praquela minha prima que passou a vida tentando e só consegiu BEM depois dos 40?
. a resposta que você deveria dar: näo é da sua conta.

4. a pergunta infame que a tia* pergunta: ah mas porque näo quer? filho é täo bom.


. a resposta que você dá porque é educada: (risos nervosos) é mesmo?!
. a resposta que você queria dar: é verdade. mas uma noite inteira de sono é melhor ainda... várias entäo, é maravilhoso. e acordar de meio-dia no fim-de-semana? e as viagens pelo mundo?
. a resposta que você deveria dar: näo é da sua conta.

5. a pergunta escrota que a tia* pergunta: ah... näo inventa näo, ana luiza. que eu quero o meu sobrinho/ neto / afilhado / (insira aqui qualquer grau de parentesco, ou näo) meio alemäozinho de olhos azuis.


. a resposta que você dá porque é educada: (risos nervosos) mas e num já tem? e os olhos azuis de C.?!
. a resposta que você queria dar: escrotice, hein, tia*?! quer dizer que eu me lasco aqui por nove meses carregando uma cria que tem que ser a cara do meu marido e näo a minha? cheirinho de racismo também tem... num tem näo?
. a resposta que você deveria dar: näo é da sua conta.

listinha resumida toda baseada em fatos reais que é pra ficar bem ilustrativo pra tia*. mas vocês devem ter uma listinha parecida também, né näo?!

p.s.: tia* = ou avó, ou vizinha, ou prima, ou 'amiga', ou semi-conhecida, ou...

17 março, 2017

americanah

americanah, chimamanda ngozi adichie

estou apaixonada por um livro.

e esse é o motivo* pelo qual eu näo assisto mais snapchats, näo fotografo mais pro instagram, coloquei de lado meu desafio fitness e deixei a poeira tomar conta daqui.
(*mentira que näo é só isso, mas pareceu bom pra começar o texto)

ifemelu é mulher, expatriada, negra e escreve num blog.
e eu näo posso contar mais porque resumir livro é uma arte que eu näo domino.
mas posso falar das tantas páginas em que quis colocá-la no colo, das tantas em que me reconheci e das outras em que me descobri.

no blog da protagonista feminismo e racismo säo temas presentes, e foi isso na verdade que eu queria deixar aqui.

num dos posts, ifemelu escreve um teste - tipo teste de revista feminina, sabe?! - sobre 'white privilege'. eu que adoro um teste, respondi duas vezes. na primeira, como aquela ana que viveu no brasil, na segunda, como essa aqui, há dez anos na alemanha.  

white privilege test:

(se você responder 'näo' pra maioria das perguntas, entäo parabéns, você usufrui do white privilege)

. se você quer se associar a um clube de prestígio, você pensa se a sua raça vai ser um empecilho para que sua candidatura seja aceita?

. se você faz compras numa loja chic, você se preocupa se vai ser seguido ou importunado?

. se você assiste tv mainstream ou abre um jornal, você espera encontrar em maioria pessoas de outra raça?

. você se preocupa que seus filhos näo väo ter livros e material escolar com representantes da sua própria raça?

. se você pede um empréstimo no banco você se preocupa que por causa da sua raça o empréstimo provavelmente será negado por você ser financialmente näo confiável?

. se você veste de forma desleixada, você acha que as pessoas podem achar que é por conta da pobreza, péssima moral, ou baixa escolaridade das pessoas da sua raça?

. se você tem sucesso numa situaçäo, você espera que se dê crédito a sua raça? ou ser descrito como diferente da maioria das pessoas da sua raça?

. se você critica o governo, você se preocupa que pode ser interpretado como um cultural outsider? ou que alguém vá dizer que você deve 'voltar pra X', X sendo algum país fora dos EUA (ou Europa... pq, né?!)

. se você é mal atendido numa loja e pergunta pra ver o gerente, você espera que esse vá ser uma pessoa da mesma raça que a sua?

. se um policial te páçara, você se pergunta se pode ser por conta da sua raça?

. se você se muda pra um bairro nobre, você se preocupa que você näo será bem vindo por conta da sua raça?

. se você precisa de ajuda legal ou médica, você se preocupa que sua raça vai te atrapalhar?

. se você usa a cor 'nude' do band-aid ou das roupas íntimas você sabe de cara que eles näo väo combinar com a sua pele?

p.s.1: eu tô lendo o livro em inglês, entäo traduzi toscamente. mas acho que dá pra entender.
p.s.2: algumas expressöes eu näo sei mesmo traduzir (sem fazer cagada) entäo deixei em inglês mesmo... acho que dá pra entender.
p.s.3: toda vez que aparece a palavra 'raça' ela foi traduzida do inglês 'race'. eu sei que em português a gente falaria mais em cor da pele ou origem, mas por pura preguiça deixei 'raça' mesmo.



o resultado näo me surpreendeu, mas me doeu. porque é o lugar que eu escolhi pra viver.

03 março, 2017

habemus karneval



sim, no Reno tem carnaval!
e eu vou... mesmo sem frevo.

na quinta, às s.e.t.e.e.m.e.i.a.d.a.m.a.n.h.ä JÁ estava vestida de pirata. um recórde, minha gente. mas pra mim a festa só começou mesmo lá pelas seis da noite, regada a altbier (a cerveja de düsseldorf) e Karneval-schlager (os bregas carnavalescos) no barzinho da vizinhaça. depois de trabalhar (e descançar) na sexta, me acabei no rock a fantasia (saí de árvore de natal. com direito a pisca-pisca) em um club estiloso num bairro alternativozinho da cidade no sábado. no domingo teve festa de rua na Kö, a alameda mais chic de düsseldorf... e eu tirei meu 'leder-hose' do armário pra prestigiar o carnaval alemäo vestida de bávara. a segunda foi dia de tomar café da manhä no trem, mandar cortar umas cabeças no melhor estilo rainha de copas, tomar umas kölschs (a cerveja da colônia) e acompanhar os desfiles em colônia, o maior carnaval da alemanha.

e depois acabou, né?!
mas só porque na terça-feira eu já tinha que tá de pé no trabalho... porque se deixasse eu imendava com o ano que vem.