06 abril, 2018

20 coisas novas depois da alemanha

berlin, 2006.

há um tempo atrás Taís, brasileira que mora na Irlanda, fez um texto contando as 20 coisas que mudaram na vida dela desde que ela mudou pra Dublin. desde entäo, eu tenho pensado o que mudou na minha vida nesses quase 12 anos de alemanha. e minha vida é täo outra vida hoje que foi difícil pensar em SÓ 20 coisas. 

muitas vezes eu me pergunto se mudei porque EU mudei, ou se mudei porque a alemanha me mudou. acho que nunca vou saber, mas sinceramente näo acho que saber o porquê muda qualquer coisa. e essas säo as 20 coisas que mudaram pra mim:

1. virei ciclista.
sempre adorei andar de bicicleta. no brasil pedalava em círculos em parques ou condomínios só pela vontade de pedalar. por aqui ciclovia é regra e hoje a bicicleta é meu meio de transporte: vou pro trabalho, pra balada, vou acampar... tudo de bike. sou ciclista convicta e näo troco esse 'way of life' por nada. (mais em bye bye, bike)

2. larguei o sedentarismo.
quando minha bunda sendentária de 22 anos chegou aqui e viu o tanto de gente correndo nos parques, patinando, pedalando pensei "má nunca!". hoje eu sou daquelas pessoas que acha programa de domingo é acordar cedo pra fazer yoga, aproveitar o sol é sair pra uma corridinha, e férias é subir montanha por 150km a pé. virei aquelas pessoas pra quem eu torcia o nariz e nunca me senti täo bem comigo mesma. (mais em maratona de colônia)

3. virei bicho-do-mato.
a europa... esse continente täo velho e povoado, cheio de cidades incríveis! me fez na verdade passar a amar estar na natureza. descobri que näo só adoro acampar, fazer trilha, nadar em rio, fazer bike trekking, nadar em lago... como passei a precisar de tudo isso pra estar em paz. (mais em nascida no asfalto)

4. minha alimentaçäo mudou.

me alimento muito melhor. no brasil nunca comia salada e frutas se resumiam a suco ou - quando muito - à salada de frutas... tudo com MUITO açúcar. diminuí espontânea e naturalmente o açúcar, legumes e frutas säo a parte principal da minha alimentaçäo, troco grande parte da farinha branca por farinha integral e gräos, restringi (e tenho restrito cada vez mais) meu consumo de carne, e presto muita atençäo a procedência dos meus alimentos. (mais em semi-vegetarianismo)

5. vivo pra viajar.
näo é que eu näo gostava antes, mas no brasil viajar é complicado... e caro. por aqui com a qualidade das rodovias e das conexöes ferroviárias, e o precinho amigo das companhias aéreas low cost só näo vive viajando quem näo quer. e viajar é a coisa que eu mais gosto de fazer na vida. entäo rolou um tempinho, eu tô no mundo!

6. amo veräo.
passei 22 anos reclamando do calor enquanto vivia em recife. na alemnaha a gente conta nos dedos os dias de veräo com mais de 25°C. hoje em dia bateu um solzinho tô lá lagartixando. pegar um bronze no parque, mudar o lado da rua pra näo ficar na sombra, passar as férias de veräo no mar... adoro suar. amo o veräo.

7. aprendi a cozinhar.
um bolo ou uma macarronada pra matar a fome eu sempre fiz, mas foi na alemanha que aprendi a cozinhar. a princípio só pra matar as saudades do tempero brasileiro. hoje cozinho quase que diariamente (revezo com o marido) e adoro provar receitas e ingredientes novos. essa coisa de arroz e feijäo todo dia näo rola por aqui.

8. adoro uma sauna.
meu primeiro fim de semana na alemanha foi marcado pelo choque de ver pessoas pegando um solzinho peladas na beira de um lago qualquer. de lá pra cá minha percepçäo quanto ao nudismo mudou gradativamente e radicalmente. hoje pra mim um corpo nu é só um corpo nu. e é essa liberdade que me permitiu experimentar uma sauninha no inverno e me apaixonar. (mais em topless)

9. sou louca por vinho.
quem nunca tomou um porre de carreteiro na adolescência que atire a primeira pedra. eu tomei vários e por achar que carreteiro era vinho nunca mais que quis tomar vinho. até minha host family austríaca me apresentar ao que era vinho de verdade (a gente tá na casa dos outros, num vai fazer desfeita, né?!). hoje tenho minha vinoteca preferida, uma micro-adega em casa, e näo quero outro álcool na vida.

10. näo vivo sem minha agenda.
enquanto no brasil a gente tem aquele famoso "vamo marcá", na alemanha a gente marca. e na agenda. no meu primeiro ano aqui achava um absurdo minha host family anotar encontros com os amigos na agenda. hoje eu vejo de outro jeito: colocar o amigo na agenda mostra que aquele encontro é importante, e que você reservou um tempo da sua vida especialmente pra isso. sem falar que evita os bolos, né?! (mais em bullet journal)

11. meu paladar por doce é diferente.
a gente näo sabe, mas no brasil o consumo de açúcar é absurdo. os produtos industrializados alemäes contém menos açúcar que os brasileiros, além disso a adiçäo de açúcar na alimentaçäo é bastante reduzida. ao voltar ao brasil depois do meu primeiro ano de alemanha enjoei meu refrigenrante e chocolate brasileiros favoritos. extremamente doces. e o que a gente também näo sabe, é que esse paladar por doces é coisa fácil de se mudar. esses anos todos de alemanha me fizeram detestar coca-cola; näo adoçar mais suco, iogurte, ou leite; trocar o chocolate ao leite por meio-amargo; e diminuir muito o açúcar na hora de preparar sobremesa ou adoçar o café. a balança naturalmente agradece.

12. desapeguei das minhas unhas.
desde que me conheço por gente minha mäe vai à manicure todo santo sábado. por aqui nem pra ir a um casamento as alemäs se däo ao trabalho. juntando isso aos 4 anos de visitas quase diárias à carpintaria da faculdade (näo tem esmalte que aguente) e ao tempo que se gasta fazendo unhas... desapeguei. e eu até continuo gostando das minhas unhas vermelhas, mas elas viraram diversäo e näo mais obrigaçäo.

13. passei a acordar mais cedo.
até a oitava série eu estudava a tarde. entäo aprendi desde cedo a trocar o dia pela noite. sofri no ensino médio e na faculdade. depois de vir pra cá a vida ganhou um ritmo novo. e junto com esporte e a preocupaçäo com a alimentaçäo, dormir bem entrou na rotina.

14. näo sou mais uma neurótica por limpeza.
se tem uma coisa que aprendi com minha mäe é que casa tem que ser impecavelmente limpa e arrumada. o que é muito fácil de se dizer quando näo se faz a própria faxina, né?! na alemanha - geralmente - se faz a própria faxina. e quando eu tive o primeiro apartamento pra chamar de meu, investi em todos os tipos de produtos de limpeza com cheirinho de química pra deixar ele limpo e impecável. mas aí tem a vida, né?! e trabalhar, estudar, fazer supermercado, ter vida social, cozinhar, namorar e manter um apartamento IMPECAVELMENTE limpo e arrumado é um tanto de trabalho demais. e foi pro bem da minha saúde física e mental que larguei o cheirinho de química (tenho usado produtos mais leves) e o impecavelmente. minha casa é apenas limpa (mas näo olhe embaixo do sofá) e arrumada (quase sempre). (mais em o vinagre e a “ökogesundheit” alemä)

15. näo saio de casa sem maquiagem.
näo sei como vocês fazem, mas em recife näo tem make que näo derreta. entäo eu nem tentava, né?! aqui o clima ajuda e eu já näo saio mais de casa sem esconder as olheiras. e depois de ter passado pela fase da sombra marrom e lápis de olho às 8h da manhä, hoje eu uso só um BB Cream, rímel e um pouquinho de blush (pra disfarçar o inverno). tudo bem levinho, mas näo saio sem!

16. troquei o turistar por viajar.
na nossa primeira viagem juntos fomos a paris. e o alemäo ficou louco com o ritmo turista-brasileiro de visitar e fotografar todos os pontos turísticos no guia de viagem. continuo usando o guia pras minhas viagens, mas o ritmo e  olhar säo outros. näo entro mais em fila pra monumentos, troco a rota marcada pelo flanar sem rumo, e sigo mais as dicas de locais do que do meu guia de viagem.

17. natal agora é diferente.
minha mäe tem 8 irmäos que tem parceiros e filhos. boa parte dos filhos também tem parceiros e filhos. e essa gente toda celebra o natal na casa dos meus pais. é massa tanta gente querida junta, mas depois de uns natais por aqui o volume e a inquietaçäo me deixaram meio louca. natal na alemanha é escuro, é silencioso, é frio, é aconchegante, é introspectivo. e eu adoro muito. mas näo tanto que näo deixe de querer ficar louca e ir celebrar o natal com a família no brasil de vez em quando.

18. faço eu mesma.

quem me conhece sabe que desde sempre sou adepta aos DIY da vida. mas se no brasil por vontade, aqui por falta de opçäo mesmo. na alemanha qualquer trabalho braçal/manual custa os olhos da cara. entäo por aqui se pensa duas vezes antes de chamar alguém pra montar os móveis ou se contratar um pintor de parede. o resultado é um trabalho danado pra fazer uma mudança ou renovar um apartamento, mas é também uma delícia por saber que fui eu mesma quem fiz. 

19. reconheci meu ateísmo.
sempre quis respostas pra vida. e o resultado disso é que desde cedo sempre li muito sobre filosofia e diferentes religiöes. mas mesmo com um olhar crítico, no brasil acho difícil se desvencilhar de tanto "ascendente em peixes", ou "vai com deus", ou "a energia näo bate", ou todo esse dia-a-dia täo impregnado de religiosidade e que a gente nem percebe. na alemanha religiäo é coisa bem pessoal e näo é conversa pra fila do päo. isso me deu espaço pra ser eu. e foi quando eu me reconheci e me aceitei atéia. e ano que vem säo 10 anos de felicidade sem deus no coraçäo.

20. näo chamo mais o brasil de "casa".
demorou, mas depois de tantos anos o brasil é a casa dos meus pais. nunca me senti de verdade em casa por lá, - näo é à toa que mudei de país - e embora näo me sinta completamente em casa em lugar nenhum do mundo, a alemanha é a casa que eu escolhi.

8 comentários:

  1. Adorei todos os pormenores mas o mais engraçado para mim foi o facto de no recife a make derreter 😵 beijinhos e bom fim de semana! Também gostei da parte da faxina da casa mais natural 😘

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    1. recife näo só é quente como é extremamente úmida. a gente acorda suando!

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  2. Que post gostoso, Ana! ADoro essas reflexões. Acho que a Alemanha deve ter ajudado a florescer muita coisa que estava já aí dentro de você. E tem a maravilhosa idade, né?! A gente reclama e tal, mas nada como a tranquilidade depois dos trinta, rs... a gente se sente tão confortável sendo quem é, tão nem aí pros outros, pras regras, pra porra nenhuma, qe tudo que precisa é fazer as vezes alguns pequenos ajustes (como por exemplo dormir melhor).
    Eu não consigo nem comparar dois anos com doze rs.. mas já vi uns indícios de algumas coisas aqui em casa, principalmente a limpeza rs.
    Beijão!

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    1. é isso aí tudinho que tu disse, gabi.
      e quand chegar a hora (num precisa ser 12 anos) sei que vou adorar ler uma lista como essa feita por você.

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  3. Ana, que legal que vc fez esse post, fiquei feliz que meu post te inspirou!
    Gostei de saber da tua lista de coisas.. realmente 20 é um número simbolico haha to pensando em fazer uma parte dois no futuro.
    E fiquei pensando aqui que tb desapeguei tooootal de unhas. No Brasil eu era aloka dos esmaltes, tinha um bilhão de esmaltes de tudo que era cor, era viciada em sempre ficar trocando e tals.. e aqui eu não consigo lembrar a ultima vez que pintei as unhas hahaha

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    1. e olha que de uns 6 meses pra cá o desapego só tem crescido. e só näo é maior pq minha unhas täo super fracas e por isso mega destruídas. só tô pintando pra disfarçar.

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  4. Adorei ler isto Ana! Sabes, temos muitas, muitas coisas em comum para além da língua e do curso :P A Alemenha fez-te bem!

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    1. ahhh vai ser bom descobrir o que mais em comum off line ;)

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